quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Menos 15 dias de luta, ou 365, ou uma vida inteira.

Eu não quero morrer. Mas eu não quero viver pra ver isso.
Será que eu merecia mesmo essa apunhalada que dói tanto? No peito, no estômago... No espírito despedaçado. Nos sonhos fugitivos. Na desesperança. No medo. Nos brônquios... dificuldade de respirar.
A sombra da dor não deixa o meu rosto. A face contraída e molhada. O olhos vazios. Tudo foi embora em questão de minutos. Como a vida pode ser assim tão volátil? Como ela pode me escorregar entre os dedos de forma tão repentina?
Mas do que a explosão das bolhas no meu corpo fraco, explode a fraqueza na minha alma. É difícil acreditar, mas a prova está literalmente estampada na minha cara. Não tenho mais vergonha da minha aparência, tenho vergonha da minha inutilidade, incapacidade de mudar as coisas. Minhas mãos estão atadas. As minhas pernas e tudo mais que sei e que possuo também.
Não gosto de ser vulnerável. Não gosto de ser passível diante da tempestade que se forma sobre a minha cabeça. Eu não nasci pra aceitar tudo do jeito que é, eu não suporto deixar as coisas como estão, me resignar. Mas o que mais eu posso fazer? Não me conformo, mas o que mais eu posso fazer?
Nada.

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Você não acreditaria se eu lhe dissesse o quanto é impossível de acreditar.

Eu perdi quase uma vida inteira em poucos dias, como pode isso, meu Deus? Eu perdi tudo o que tentei, tudo... E agora só me resta um resquício de fé desiludida de que as coisas vão melhorar. Mas no fundo, eu sei... Não vão.


sábado, 16 de outubro de 2010

Lumus

Há uma penumbra sobre o meu horizonte. Nada se esclarece ou se cobre com a pura treva. E eu me sinto tão só e tão incompreensível. Meus olhos não param de arder, não param de arder... Me consomem na iminência do fluido que não pode escorrer pela face intérprete. Essa sensação estranha de não saber onde pisar, de sentir as pernas trêmulas, temendo o risco progressivo - a cada passo - de cair no chão, seco e frio.
Eu vejo folhas caídas de outono nos meus sonhos. Lugares claros, com cores vivas, tomados de luz. Aí eu acordo debaixo da sombra de novo. Olho pro céu e não vejo nem o límpido azul, nem o cinza-chumbo. Eu vejo embaçado, sem cor definida - não sei. Não sei o que nada disso significa, realmente. Talvez seja só o meu astigmatismo, ou sei lá.
Queria ser uma boa atriz, mas minha voz sempre me entrega. É a válvula de escape da minha alma inquieta. Ela trepida, tremula, esganiça, geme, discursa, se eleva, esbraveja... igualzinha a mim. Mas eu tenho mesmo que ressurgir desse meio-termo agonizante. Sou ou não sou? Tenho ou não tenho? Posso ou não posso? Choro ou não choro?

Me isolo.
Sofro.
Me recupero.
Me iludo.
Enxergo.
O ciclo se repete. E se repete. E se repete. E se repete. E ... ... ... ...

Me é imprescindível um estopim para me retirar desse entrave. Algo drástico.
Preciso recomeçar a acreditar nos verões calmos, de longas horas nadando no mar ou só sentada na areia, enterrando os dedos do pé e respirando a água salgada. Lembrar daqueles dias de leituras leves e barulho de chuva torrencial agredindo as telhas, respirando o solo úmido e as folhas de cacau.
Tudo isso ainda está no meu futuro, é algo que não perderei e é no que devo me agarrar. Preciso me ler e me reler, me encontrar. Preciso levantar a varinha de novo e dizer: Lumus!
E aí toda penumbra irá embora e a escuridão completa nem chegará perto.
Nunca pensei que reviveria isso, o meu herói das lembranças infantis mais tristes vindo me salvar outra vez. E tem gente que não entende o poder da mente humana.

Todos os seres racionais têm medo do escuro, do incerto, do desconhecido.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Cara.

Ele têm aquele brilho nos olhos que emanam a paixão, o sangue quente dos seres emocionais. Ele irradia aquele fulgor, uma certeza bruta e lapidada - o poder de convencer milhares de almas comuns. Ele tem aquela maneira de falar à prova de falhas, totalmente esclarecedora e verdadeira - mesmo que não o seja. Ele tem aqueles gestos que atravessam o subconsciente e o prende, sem dó nem piedade. O seu tom varia em tantas frequências diferentes que a propagação de sua ideologia é hipnotizante. Ele não causa tanto impacto, é sorrateiro e objetivo. Ele planeja e consegue. Se não consegue, ainda sim ele consegue - talvez algo maior, pelo menos uma alternativa viável. O Cara pode ser de qualquer gênero, etnia, região do planeta. Mas O Cara é indivíduo raro, me refiro aos legítimos. Porque é claro que seres assim sofrem tentativas de cópia. Mas é impossível. Porque O Cara será sempre O Cara, sempre ímpar e inigualável.

eu sou uma puta de uma boazinha.

E os bonzinhos sempre se fodem. Porquê eu não consigo ser sacana como todo mundo? Porquê eu não consigo burlar algumas regras pra me beneficiar? Porquê minha consciência sempre pesa antes e não depois de fazer a coisa errada? Todo mundo me decepciona, então porque me dói tanto e eu evito tanto fazer o mesmo com os outros? Eu devia ser uma sacana, mas so uma puta de uma boazinha. E é por isso que eu me fodo sempre. Isso e minha irresponsabilidade. Boba, fraca, medrosa, idiota. Eu só faço merda comigo mesma, ótimo.