terça-feira, 3 de agosto de 2010

Passadas e Ventania

Esforçava-se ao máximo. Parecia que ele estava por perto observando-a, mas não tinha vontade de levantar os olhos - fingia-se desapercebida da sua presença. Ventava forte. As árvores balançavam de lado a outro bruscamente e isso a assustava. Mas não era o suficiente para deter a ela, em seu objetivo. Escurecia e ela já demonstrava alguns sinais de fraqueza. Fraqueza, não desistência. As sopradas de ventos ja eram tão fortes que lhe feriam os olhos - quase já nao conseguiam, estes, manterem-se abertos: lacrimejavam copiosamente. Ele não parecia ligar muito nesse momento, distraía-se a olhar para o horizonte pensativo. Ainda assim ela juntava as suas forças para uma nova tentativa. Pôs-se de pé com alguma dificuldade. Era possível observar, algum espectador mais atento, que ela não abandonaria a sua meta tão facilmente, e nem dificilmente, por sinal. Estava completa e astutamente determinada. Sabia o quê e como fazer, a tempos se preparava, ensaiava... Mas toda aquela ventania! Parece que escolhera o momento errado, talvez devesse deixar para outra oportunidade... Não, não podia e sabia disso, sabia como as oportunidades ali eram escassas - ele raramente estaria tão perto e disponível como agora, a platéia perfeita. Resolveu-se por fim, arriscaria agora um passo e... não, NÃO! Fora cedo demais, as rajadas jogaram os seus cachos anelados sobre os olhos e a fizeram perder a noção de espaço, o equilíbrio - foi ao chão. Doera, não pôde evitar o choro silencioso. Mas nada de esperneio, ele não podia descobrir a sua façanha antes do tempo. Arrastou-se até o meio-fio, sentou-se de pés juntinhos e descobriu que, passados alguns momentos, a dor também passava. Foi tudo culpa dessa ventania! - pensara ela. Não, fora culpa dela, isso sim. Não havia reunido força suficiente para não deixar-se ser influênciada pela tal ventania, que não tem culpa, é natural e inevitável. Levantou-se de um pulo, esperou um momento enquanto se acostumava com os sopros fortes e aprendia a ter equilíbrio apesar deles. Foi então que deu o primeiro passo. Não se contentou, era pouco e parecia que ele nem sequer havia ainda notado. Deu outro, e outro, e outro e mais outro. Abraçara suas pernas, ele a olhava sorrindo, extremamente feliz. Pegou-a no colo e disse:
- O que você achou, Jú? Que eu não estava oservando cada detalhe, cada minuto das suas tentativas com a maior atenção do mundo? Eu te vi cair e fingi não ver, porque era isso que você queria e precisava. Estive todo o tempo falsamente indiferente e distante, mas aflito e do seu lado. Parabéns, minha pequena, você me deu toda a felicidade que eu poderia ter!
Ela retribuía o seu olhar cheio de amor, ainda franzindo o rosto para proteger-se do ar revolto.
Foi assim que a pequena Júlia aprendeu a andar ao sabor dos ventos.

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